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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Poema: "As alcunhas que nos põem"

Muita gente pensará que tratar o tema das alcunhas não tem nada de poético.
De facto o tema em si não é poético, mas permite ver com outros olhos, aquilo que parece insignificante.
A alcunha depois da resistência inicial da vítima é interiorizada e automatizada de modo que os "alcunhados" já nem dão por ela, é por si só um fenómeno social muito persistente e acompanha a vida do alcunhado até à sua morte, passando muitas vezes de pais para filhos.

Pôr uma alcunha a alguém
É como pôr uma tatuagem
Quer nós queiramos ou não
Ela muda a nossa imagem

A alcunha é-nos imposta
Só a tatuagem é consentida
Uma vez, a alcunha posta
É para o resto da nossa vida

A alcunha é democrática
Tem a aceitação da maioria
Só o próprio nunca é ouvido
Estranha forma de democracia

A escolha da alcunha faz-se
Pela profissão ou aparência
Pode ser um tique, uma mania
Ou apenas uma deficiência

Ela faz parte da identidade
Duma terra e duma região
Passa de pais para filhos
Ela faz parte da tradição

Zé Maluco, não tem juízo
Zé Barbeiro corta cabelo
Zé Mudo, não diz nada
E Zé Careca, não tem pêlo

Tira-picos, Tira-dentes, Tira-olhos
Batata, Batatinha, Batateiro
Mata-burros, Mata-cães, Mata-gatos
Pé-de-chumbo, Pé-de-vento, Pé ligeiro

Muitos políticos são vítimas
Da chacota desta atoarda
Se não podes bater no burro
Bate com força na albarda

Põem-se alcunhas por gozo
Ou simplesmente por pirraça
Todos acham graça à alcunha
Só a vítima...não acha graça